Temos engenheiros

"Nos últimos dez anos, tem havido um grande salto na formação de engenheiros. Todos os indicadores são crescentes: número de vagas, de cursos, de candidatos aos vestibulares, de ingressantes nas universidades e também de concluintes.

"Mantida essa tendência, não vemos para os próximos dez anos um problema quantitativo, ou seja, o risco de faltar pessoas diplomadas em engenharia."

Este foi o tom da palestra proferida por Paulo Nascimento e Rafael Pereira do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA), a convite do Centro de Estudos Avançados da Unicamp.

Os dados apresentados pelos dois pesquisadores contrastam com uma pesquisa recente que afirma que o Brasil sofre escassez de talentos.

Outra pesquisa havia previsto que o apagão de engenheiros era iminente.

Ponderações

Entretanto, Nascimento atentou para outras hipóteses, como o nível de qualificação do engenheiro, a incapacidade do estudante em concluir o curso (por carência até de educação básica), a possível falta de mão-de-obra em determinadas especialidades e a localização espacial.

"Os números [que temos] não mostram carência quantitativa em nível nacional, mas a formação de engenheiros pode estar concentrada em algumas regiões, em detrimento de outras que passem a contar com investimentos produtivos," disse Paulo Nascimento.

Rafael Pereira, por sua vez, comentou sobre a aventada necessidade de um plano emergencial de "importação" de engenheiros para assegurar a execução de tantas obras planejadas para o Brasil na década que começa.

"Também apresentamos esses dados. O número de engenheiros estrangeiros vem crescendo um pouco desde 2001. Mas ainda não ultrapassa o nível de contratados no início da década de 90 e, proporcionalmente aos brasileiros, é ainda um número muito pequeno. Por isso, pensar na hipótese de importação desses profissionais seria acupuntura, algo realmente pontual, para um ou outro setor," afirmou.

Migração entre profissões

Segundo Rafael, outro indicador de que não haverá uma escassez crônica e generalizada desta mão-de-obra qualificada é o grande contingente de engenheiros formados que trabalham em outras áreas.

"Existe ainda muita gordura a ser queimada, composta por aqueles que poderiam retornar às atividades de origem. Isso vai depender de quanto tempo estão fora, pois um engenheiro que trabalha há muitos anos em finanças, dificilmente será empregado novamente, por exemplo, na construção civil," ponderou.

Paulo Nascimento informou que mais um indicador crescente percebido nas pesquisas do IPEA é referente aos salários.

"Existe um avanço salarial, que pode ser decorrente de um mercado aquecido: não havendo muitos profissionais desempregados, temos um cenário de escassez que eleva a remuneração.

"Mas, avaliando os dados, é bem possível que parte desta evolução represente também uma recuperação salarial, pois as décadas de 80 e 90 foram muito ruins para os engenheiros, com a desvalorização da profissão. Além disso, os salários estão crescendo de maneira geral," concluiu.

Com informações de Luiz Sugimoto – 03/10/2011