As autoridades da América Latina confundem o cânhamo industrial com a maconha, o que impede negócios que podem chegar a um bilhão de dólares só nos Estados Unidos –

06-11-2009Negócios

por Rodrigo Lara

Cânhamo: cultivo autorizado na Europa, no Canadá, na China e em oito estados Norte-americanos

A equipe policial se moveu com rapidezaté encontrar seu objetivo: os 47mil pés de maconha que cresciam felizes,ocultos por um campo de milho.

Ospoliciais não esperaram para começar acortar os arbustos esbeltos, facilmentereconhecidos por suas folhas de cincopontas. Já tinham cumprido metade datarefa quando homens desesperadosapareceram. Depois de muita discussão,os policiais perceberam que acabavamde destruir o campo experimentalde cânhamo industrial do Centro dePesquisas Agrícolas da Universidade deWageningen, na Holanda.

O mal-entendido ocorreu no iníciode setembro, e não é nenhuma novidadepara os cientistas dos centros de pesquisaagropecuária ao redor do mundo.Há décadas eles vêm sendo interrogadose maltratados por policiais que,tomados por um insuperável “racismo”vegetal, não percebem uma diferençabásica. O cânhamo industrial (CannabisSativa Sativa) e a maconha (CannabisSativa Indica) são plantas muitopróximas, mas têm uma diferença fundamental:o tetra-hidro-canabinol, otemido THC, o princípio ativo da droga.Na maconha, sua concentração vai de 6% a 20% nas espécies mais potentes.No caso do cânhamo industrial, a concentraçãoé de apenas 0,3%, ou seja, épossível fumar toneladas de cânhamosem nenhum efeito entorpecente.

As autoridades policiais não fazemessa diferenciação ao cortar as plantas,o que acaba podando também as oportunidadesde negócio. Segundo FabrizioGamberini, uruguaio fundador da TheLatin America Hemp Trading, em Montevidéu,o cânhamo industrial é muitousado hoje na Alemanha e na Françapor suas propriedades isolantes. “Suasfibras são misturadas à fibra de vidro e usadas em portas e pastilhas de freiospela Mercedes Benz e pela BMW”, dizele. Gamberini afirma que o cânhamo éuma fonte de celulose ecológica e seusóleos e sementes podem ser usados emcentenas de alimentos e cosméticos,além das fibras. “Nos Estados Unidos,o mercado para o cânhamo industrial éde um bilhão de dólares”, diz.

Esses usos fizeram com que, alémdos países europeus, China, Canadá eoito estados norte-americanos tivessemautorizado a produção do cânhamoindustrial. Diante disso, Gamberini– que não é agrônomo nem agricultor, mas administrador de empresas, e trabalhouno mercado financeiro, compoupança e crédito – quer que o Uruguaiseja o primeiro país da AméricaLatina a autorizar a produção do cânhamoindustrial.

Se isso ocorrer, será o retorno deuma antiga tradição. Durante séculos,as fibras de cânhamo têm sido usadasem cordas, tecidos e calçados. No Chile,a indústria do cânhamo foi uma atividaderelevante entre os séculos 17 e19. “Mas hoje a legislação chilena nãodiferencia entre as duas variedades daplanta, porque as autoridades tememque se plante maconha junto com ocânhamo”, diz o uruguaio, que tambémé representante comercial da EcofibreIndustries Limited, da Austrália.

Segundo o pesquisador baiano SérgioVidal, que desenvolveu um estudosobre a fibra do cânhamo, no Brasil oproblema se repete. “O cultivo foi proibidoem 1932, sem nenhum tipo deexceção”, diz ele. A planta faz parte dahistória brasileira. “Havia um comércioativo de cânhamo na época do BrasilImpério, quando o cânhamo era usadopara a produção de velas de navios ede roupas, e suas sementes forneciam óleo para a iluminação, juntamentecom o óleo de baleia”.

Para Gamberini, proibir por desconfiança é absurdo. “O Canadá implantouum sistema rigoroso de registro deagricultores e já existem 10 mil hectarescultivados”. Por isso, o uruguaio fazsua defesa junto aos candidatos à Presidênciado país. E não está sozinho nacorrida pela legalização. No México, porexemplo, a deputada social-democrataElsa Conde apresentou no fim de 2008um projeto para autorizar o cultivo industrialdo cânhamo. Seu argumentofoi o de que “os tratados internacionaisde regulação de cannabis permitem ouso industrial do cânhamo, bem comoos acordos comerciais assinados peloMéxico, como o Nafta, e os com a UniãoEuropeia, Venezuela e Colômbia, quecontemplam quotas e disposições específicas para esses produtos”.

Enquanto isso, Gamberini mantémseu cultivo experimental com o objetivode determinar qual seria a qualidade quemelhor se adapta ao clima dos pampas”.Proibir o cultivo do cânhamo industrialdevido à maconha é uma insensatez”,diz ele. “É como proibir que se coloquemsementes de papoula no pão”.